*POR SIDENEI DEFENDI – Conteúdo Autoral –
Em “Os Embaixadores da Comunicação Pedreirense”, que vai aparecer aos poucos – não será sequencial – a crônica dedicada a homenagear os operários do microfone que, com ética e paixão, narraram pela RCP a história da nossa gente, mantendo viva a alma da nossa Capital Nacional da Porcelana. Hoje, a REVERÊNCIA é para o “Rei das Noites”.
O homenageado de hoje foi o primeiro a ter um programa efetivo na Rádio Cidade de Pedreira, 1.560 KHz. Os 250 watts, uma potência modesta no papel, tocavam fundo no gigante coração de quem vivia entre as colinas, as planícies, as serras e os pontos de relevos acidentados, da Grande Campinas, Baixa Mogiana e Circuito das Águas, além de atingir outras localidades da Região Bragantina e atravessar fronteiras para atingir o Sul de Minas. E o “Rei das Noites” também conquistou ouvintes e amigos em todos os pontos em que chegava o som da RCP.
O sucesso do apresentador, que se tornou o “Rei das Noites” se deve à capacidade de transformar o rádio em uma companhia íntima e personalizada, quebrando barreiras e conectando o comunicador e o ouvinte. Inovou ao conversar de forma simples, direta e objetiva, como se estivesse na sala da casa do ouvinte, preenchendo o vazio com conversa, música e muita interatividade, tornando-se uma presença constante, acolhedora e com muito calor humano.
A magia revestiu por anos o universo radiofônico, criando um vínculo de proximidade entre ouvintes e apresentadores. É fascinante observar a grande influência que a Rádio Cidade de Pedreira exercia sobre o público. Essa mídia, que sempre deu asas à imaginação, ajudou a construir uma imensa rede de amigos por meio do programa “Falando em Saudade”, marcado pelo entretenimento, pela boa música e pela interatividade.
Apresentado por Antonio Honório Filho, o programa foi batizado por Álvaro Edmir Carbonato, um dos diretores da emissora. Nos primeiros dias, a abertura utilizava a música “Alguém Me Disse”, de Anísio Silva. Posteriormente, ganhou um novo prefixo: “Onde Anda Você”, de Vinicius de Moraes, por sugestão de Adilson José Dorigatti.
Na época, Adilson havia se mudado para Pinhalzinho para lecionar em uma escola estadual e fazia verdadeiras peripécias para sintonizar a ZYK 725 naquela região. Para ouvir a rádio de sua terra natal, ele improvisava bacias de alumínio em antenas altas, como se fossem parabólicas. Assim, conseguia captar o som da Rádio Cidade de Pedreira (RCP). Embora o sinal oscilasse, os momentos de boa sintonia eram suficientes para satisfazer a curiosidade e mantê-lo informado sobre os acontecimentos da “Flor da Porcelana”.
De volta ao “Falando em Saudade”, Antonio Honório Filho, para não desagradar aos ouvintes já acostumados ao prefixo de Anísio Silva, decidiu fundir as duas músicas. O programa passou, então, a contar com uma abertura especial unindo dois clássicos que agradavam a todos. O poder da Rádio Cidade residia na capacidade criativa de instigar a audiência, e a comunicação de Honório potencializava essa força. O rádio sempre teve um papel transformador, despertando sonhos e criatividade por meio de pequenos aparelhos portáteis.
Vale ressaltar que a RCP surgiu em um momento áureo do rádio AM e, com uma programação bem elaborada, conquistou toda a região. O “Falando em Saudade” foi o primeiro programa a entrar oficialmente no ar após a inauguração da emissora. Transmitido de segunda a sexta-feira, das 20h30 às 22h — logo após os programas oficiais “A Voz do Brasil” e “Projeto Minerva” —, sua grande marca era a descontração e uma linguagem que cativava plenamente o público.
Honório produzia, apresentava e atendia aos pedidos dos amigos e ouvintes por telefone ou carta — e-mail, WhatsApp, Facebook e Instagram eram inimagináveis na época — e também no contato diário, fosse no banco, na Prefeitura ou na rua. A moçada pedia e o “Tó”, à noite, colocava no ar.
Uma de suas frases de atendimento era: “nas asas do bem-querer, abraçamos Cláudio Aparecido Pereira, que nos acompanha diariamente pelas ondas da Rádio Cidade de Pedreira, no bairro Santa Edwiges”. A audiência explodia não só na cidade, como também em Campinas e tantas outras localidades. Outra frase cunhada por Honório que ganhou fama regional era: “essa vai, lá longe, prô meu amigo Fuminho, em Campinas”.
O distante ano de 1981, quando Pedreira ganhou sua primeira emissora — a Rádio Cidade de Pedreira, “uma nova emoção no ar” —, viu nascer também um dos programas que mais conquistou e fidelizou ouvintes: o “Falando em Saudade”, comandado por Antonio Honório Filho. Com momentos marcantes, a atração noturna proporcionou, durante anos, as melhores melodias do passado e, como entretenimento, conquistou a credibilidade e o respeito de um grande público.
Honório só não fazia o programa quando havia transmissão de futebol. Vale destacar que a emissora tinha equipe própria e era muito prestigiada também no esporte. Numa dessas quartas-feiras da vida, o horário noturno foi preenchido com o jogo entre Ponte Preta e São Paulo, realizado no Majestoso, em Campinas. Num dado momento, em 1984, Adilson Dorigatti, que atuava como repórter, soltou no ar: “corta Dario Zanini, pelo São Paulo…”. Na verdade, era Dario Pereira. Nem precisa dizer que os comentários explodiram no dia seguinte, o que era um dos indicativos da maciça audiência. Dario Zanini era o prefeito de Pedreira na oportunidade.
Naquele jogo, compuseram ainda a Equipe Cidade de Esportes: Artur Eugênio, Walter Carbonato, Paulo Grillo e Sidenei Defendi. Honório criou uma identidade com seus ouvintes, constituindo uma enorme comunidade — a do “Falando em Saudade” — com aqueles que apreciavam a boa música do passado, muito antes de existirem redes sociais.
Na memória de quem acompanhou o programa, certamente ficaram gravados o companheirismo, a alegria e os instantes mágicos do rádio. Honório conversava com o ouvinte como se estivesse frente a frente; as músicas alimentavam esperanças, despertavam otimismo e relembravam bons momentos. Surgia, assim, um espaço acolhedor entre a conversa amiga e motivadora do locutor e o ouvinte, personagem principal desse sucesso. Era o rádio em sua fase áurea, e a Rádio Cidade não ficava atrás.
De maneira calma e tranquila, ele conversava com as pessoas como se estivessem no mesmo recinto. Esse seu “jeitão amigo” tornou-se sua marca registrada. Na verdade, criou um estilo próprio e descontraído, diferente da voz empostada dos locutores da época. Como programador, demonstrou extrema sensibilidade ao captar o gosto do público.
Com Antonio Honório Filho, o rádio ganhou uma nova maneira de recordar e reviver as boas canções. O “Falando em Saudade” é lembrado até hoje e, sem dúvida, tornou-se um patrimônio do rádio pedreirenses, esse veículo que foi e sempre será o de maior imediatismo, mesmo com o avanço da internet. Que saudade desses bons tempos!
*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral – (Texto criado em 2015 que integra o livro “Delírios & Devaneios”, ainda não publicado).
